Comprar casa em Portugal exige taxa de esforço acima de 40% do rendimento mediano
2 de abril, 2026
Segundo um estudo do Banco de Portugal, as famílias com rendimento mediano enfrentam dificuldades crescentes no acesso à compra de habitação em Portugal, com a prestação do crédito a representar mais de 40% do rendimento disponível.
De acordo com a análise, a taxa de esforço começou a agravar-se a partir de 2022, atingindo um pico de 53% no final de 2023. Apesar de uma ligeira descida, manteve-se em 48% nos três primeiros trimestres de 2025 — ainda acima do limiar de 40% que o banco central considera indicativo de sobrecarga financeira.
O BdP indica que o agravamento resulta sobretudo da combinação entre subida dos preços da habitação e aumento das taxas de juro. Entre 2019 e 2023, a prestação mensal média quase duplicou, passando de 350 para 855 euros. Apesar de uma melhoria de cerca de 34% no rendimento das famílias até 2025, o aumento contínuo dos preços manteve a pressão sobre a acessibilidade.
As dificuldades são particularmente evidentes nas zonas urbanas do litoral, com destaque para Lisboa e Porto
Na capital, a prestação mensal para aquisição de uma casa de dimensão mediana subiu de 907 euros em 2019 para 1.811 euros em 2023, o que corresponde a uma taxa de esforço teórica de 102% para uma família de rendimento mediano. No Porto, o valor aumentou de 550 para 1.339 euros, equivalente a 84% do rendimento.
Segundo o estudo, apenas agregados com rendimentos mais elevados conseguem adquirir habitação a preços medianos nestas cidades.
A nível nacional, o número de municípios onde a taxa de esforço ultrapassa 40% aumentou de nove em 2019 para 104 em 2023 (num total de 294 analisados).
Em várias zonas, nomeadamente no Algarve, a compra de casa torna-se praticamente inacessível para a maioria das famílias, sendo viável sobretudo para quem dispõe de poupança acumulada ou rendimentos mais elevados, incluindo não residentes.
Crédito concentrado em rendimentos mais altos
Os dados mais recentes indicam ainda que os novos créditos à habitação estão concentrados em famílias com maior capacidade financeira. Mesmo assim, em 26 municípios a taxa de esforço associada a esses contratos ultrapassa o limiar de 40%.